A polêmica do trote estudantil
Entrar na universidade é um ritual de passagem para muitos adolescentes. O jovem deixa o colégio e a vida mais próxima dos pais, para partir em busca do novo, de sua vida adulta. Ser calouro faz você sentir algo único, depois dos longos meses de estudo pra chegar lá. Mas, e quando isso acaba em tragédia?
Na última segunda-feira, dia 16, a Câmara dos Deputados decidiu votar, em regime de urgência, o Projeto de Lei que torna crime o trote violento aplicado contra estudantes recém-chegados à universidade. A proposta prevê a abertura de processo contra os que o praticarem, pune a instituição onde ocorreu a violência e incentiva o trote cidadão.
O projeto de lei entra em votação após os inúmeros casos de trotes violentos registrados só neste início de 2009, como o caso da garota grávida que sofreu queimaduras causadas por produtos químicos e do rapaz agredido no interior de São Paulo.
Todos os anos, no início das aulas, o uso de violência no trote e a sua legalidade acabam se tornando alvo de muita discussão. Para a coordenadora do projeto Trote da Cidadania, Cibele Helena Salvaterra, os acontecimentos são lastimáveis.
“Infelizmente, a gente ainda tem que fazer o Prêmio Trote da Cidadania, por causa dessas atrocidades. É terrível ver esse tipo de coisa na televisão”, afirma Cibele.
A coordenadora conta que o projeto, criado há 10 anos, busca incentivar os estudantes a substituírem o trote violento pelo trote cidadania e, principalmente, fazer com que o universitário continue sendo cidadão sempre, não só quando ele é calouro. “A ideia é que ele comece sua vida de voluntariado no trote, mas que faça ações durante o ano todo”.
Além do prêmio, há universidades que possuem seus próprios projetos, como a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “O trote aqui acontece na primeira semana de aulas. É uma recepção aos calouros, para falarmos sobre assuntos que atingem a comunidade de uma maneira geral. As atividades visam mostrar como o calouro é importante, para ele ter uma preocupação com a comunidade”, explica a coordenadora do Trote da Cidadania na Unicamp, Aline Cristina Antoniazi Ordine.
Segundo Aline, a Unicamp tem uma comissão anti-trote, que garante a segurança dos estudantes. “Aqui é só o corte de cabelo e tinta mesmo. Tudo com o consentimento do aluno, para não perdermos a diversão”, diz a coordenadora.
Apesar dos diferentes casos de trotes violentos, ainda é possível encontrar locais que fazem apenas brincadeiras como conta a estudante do 5º ano de Jornalismo da Universidade de São Paulo (USP), Cassia Alves. “Na ECA (Escola de Comunicação e Artes) é super tranquilo, a gente pinta o calouro, corta o cabelo dos meninos que deixam… Se alguém pede para não ser pintado, nós respeitamos”.
Segundo Cassia, depois da morte do estudante de Medicina, Edson Tsung Chi Hsueh, em 1999, tudo ficou mais rígido. “É tudo controlado. Se os calouros se sentem ofendidos, eles podem ligar no disque trote para reclamar e ninguém se sente acanhado em fazê-lo”.


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